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           Existe Outra Sada, Sim

           Rachel de Queiroz
           
Impresso Braille em 2 partes,
na diagramao de 28 linhas por
34 caracteres, da reimpresso,
Fortaleza, 2006.

           Segunda Parte

           Ministrio da Educao
           Instituto Benjamin Constant
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          -- 2007 --
<p>
          Copyright (C) by 
          Edies Demcrito Rocha
          Editora
          Albanisa Lcia Dummar Pontes
          Superviso e reviso de originais
          Vessillo Monte
          Seleo das crnicas
          Trcia Montenegro

          ISBN 85-7529-189-0

          Todos os direitos reservados 
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                               I
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Sumrio

Segunda Parte

O carnaval, a lngua e o 
  correr do tempo ::::::::::: 101
A "incendiria" e os 
  bombeiros ::::::::::::::::: 107
No se cantam pesares :::::: 111
Prego de biela ::::::::::::	116
Velhos carros :::::::::::::: 121
Amor & poder ::::::::::::::: 127
Uma histria de Natal ::::: 133
Voc tem medo da morte? :::: 140
Existe outra sada, sim :::: 145
Falem tambm na msica, nas 
  flores e nos amores ::::::: 149 
Enxertando a vida :::::::::: 154
Prazeres ::::::::::::::::::: 159
Esse estranho animal ::::::: 164
Muito alm do rock ::::::::: 168
A imagem do homem :::::::::: 173
O vo do helicptero ::::::: 179
O mistrio da vida ::::::::: 186
O saber e o falar :::::::::: 191
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<toutra sada>
<t+101>
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O carnaval, a lngua e o correr do tempo
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  Confesso que, de corao, sou Beija-Flor. Mas ningum pode negar a vitria da Imperatriz Leopoldinense. Carnaval  sempre assim: jamais h unanimidade em torno da escola vencedora. Alis, por que unanimemente? Mestre Nelson Rodrigues j dizia que toda unanimidade  burra. Claro. Se todos se viram para o mesmo lado,  porque nenhum pensou por si mesmo, mas seguiu automaticamente a opinio imposta por algum que fazia o controle.
  Alis, que palavra feia, controle. De origem inglesa, adotada americana, quem manda, controla. Quando h perturbao na rea poltica e os chefes acalmam os nimos, o alarme se encerra com a chave: "tudo sob controle". Mas no  assim, felizmente no . Diz que o sangue latino (um parntese sobre a expresso "sangue latino": j pensou que o chamado "sangue latino"  uma das mais arbitrrias maneiras de caracterizar a nossa gente? Latino como, via Portugal? Mas Portugal sempre foi povoado por godos, lusitanos, sei l. Latinos de verdade, s os romanos ou melhor, os itlicos).
<71>  
  De latino, o portugus s assumiu a lngua: o romano imperial que lhe foi imposto pelos conquistadores mas que, na boca dos portugueses, se transformou, se adoou, se deformou, se quiserem; mas criou cara prpria e inconfundvel, graas  influncia do j existente linguajar nativo. E se os letrados latinistas no se tivessem intrometido tanto na ordenao e policiamento do portugus, talvez tivssemos hoje um idioma muito mais autntico do que esse que atualmente usamos.
  Verdade que, no Brasil, temos desrespeitado tanto as regras da Metrpole, no que se trata da lngua, que os primeiros donos dela, os de Portugal, quase no a reconhecem de ouvido. Escrita, ento, di-lhes, dando quase a sensao de um atentado. Lembro-me de um editor portugus que se props a publicar meus livros, sob a condio de que eu lhe permitisse corrigir os meus "brasileirismos". Fiquei muito indignada, fiz-lhe uma advertncia rspida -- mas, pensando bem, o homem  que tinha razo. Se era pra pu-
 blicar em Portugal, por que lhe exigia eu que me publicasse "em lngua brasileira"? Eles, l, tm todo o direito de s levar aos prelos os que lhes parecer suficientemente audvel e legvel.
  Hoje, com a idade e o melhor juzo, claro que eu permitiria as "correes" -- que na verdade seriam uma forma elementar de "tradues". Quando eu tinha uns sete, oito anos, uma de minhas tias casou-se com um portugus. Ele morava no Par e veio ficar conosco em Fortaleza, nas vsperas do casamento. Era jovem, corado, muito bonito, o que  comum em portugus jovem, e eu fiquei fascinada pelo noivo da tia. No entendia uma palavra do que ele falava; e como j me ensinavam em casa uns rudimentos de francs (lngua obrigatria neste tempo, em toda famlia de "bem") declarei em voz alta que eu achava "portugus mais bonito que francs" --  s que mais difcil de entender... Riram, mas era verdade.
<72>  
  Portugus, em Portugal , para os nossos ouvidos, bastante difcil; no s pela pronncia, como pelo vocabulrio. E penso com tristeza: ser que os nossos descendentes remotos j estaro falando uma linguagem diferente? O que nos consola um pouco dessa apreenso  que, segundo me parece, as lnguas se diferenciaram uma das outras quando ainda eram grafas quer dizer, no tinham forma escrita. Claro que o latim, pai de todas, se escrevia. Mas o nativo espanhol, portugus, francs, ao receber a lngua de conquistadores, analfabeto que era, pronunciava-a como lhe podia sair da boca. Assim se formam os novos idiomas.
  Mas a gente comeou a falar foi em carnaval. Cuja cobertura ns, gente mais velha, fazemos muito melhor do que os jovens que vo se esbaldar na rua ou nos bailes. Sentados tranqilos defronte da TV, aprendemos logo os sambas, distinguindo-os uns dos outros (embora andem muito parecidos entre si; no  toda hora que nasce um Noel Rosa). Pelo menos so cantveis, esto no ritmo do ganz.
  Gosto de carnaval. Embora aposentada das chamadas lides momescas, considero o carnaval a pausa indispensvel para o sufoco histrico da vida atual. Tudo hoje  corrido,  apressado,  urgente. E  provvel esse estado de esprito atual, nasceu dos milagres, da velocidade obtidos pelos motores dos nossos veculos. Nos tempos de dantes, uma viagem a So Paulo, j no tempo dos trens, se preparava com antecipao, se telegrafava (ou j telefonava) para o hotel, e a famlia nos acompanhava  estao para se tomar o trem. Hoje, voc est na rua, fala com algum de l; que pede a sua presena; telefona ento para casa, dizendo que "vai dar um pulo a So Paulo, mas volta para o jantar".
  Por mim, no gosto disso. Essa mobilizao permanente tira todo o sabor da vida real. As viagens sonhadas j agora no so mais as para a Europa, para os Estados Unidos. Isso j  coisa diria. Quem quiser viajar de verdade vai a Pauta Arenas, no sul, ou 
 Vancouver, no norte. O interlocutor ainda lhe pergunta: "Onde  isso?" E voc retorna, triunfante: " um lugarzinho perto do Plo..."
  Daqui a pouco at os plos perdem a graa, e como se far para *pater* os amigos? Bem, decerto haver em breve as viagens interplanetrias. Ainda resta a explorar todo o espao sideral...
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               oooooooooooo

A "incendiria" e os bombeiros
      
  Quando Getlio Vargas preparava o seu golpe de estado de 1937, tomou uma precauo elementar: passou uma rede pelo Pas, apanhando nela, entre outros, todos os possveis opositores que se espalhassem pelo territrio nacional. No Cear, mandaram os jornalistas simplesmente pra cadeia pblica. Mas comigo, uma senhora de boa famlia, tiveram considerao: fui presa no quartel do Corpo de Bombeiros de Fortaleza, num imenso salo vazio, onde ficava o cinema, no momento desativado.
  Era num primeiro andar e o acesso por simples escada. E, naquela vastido vazia, uma pequena cama de solteiro, uma mesa, duas cadeiras. Incomunicvel. Por qu? Eu no andava conspirando, trabalhava na firma *G. Grahdvol et Fils*, onde embarcvamos algodo, caroo, etc, para a Europa.
  Um dia, comeos de outubro, me aparece na firma um senhor -- um dos delegados de polcia, e me pediu que eu o acompanhasse at a porta; l nos esperava uma "viatura" (por que policiais s chamam carro de "viatura"?). Levaram-me at o Corpo de Bombeiros, ao tal imenso salo em que falei. Eu fui entregue, no a soldados, mas  senhora do comandante, que praticamente me pedia desculpas e me mostrava as precrias comodidades do local: levou-me a uma das janelas, disse que bastava eu chegar ali e dar um grito, ela imediatamente seria chamada.
<74>  
  Assim, morando com os bombeiros, passei cerca de um ms, enquanto Getlio dava e consolidava o seu golpe. E praticamente me tornei bombeira. Da minha janela, assistia aos exerccios:  impressionante como aqueles homens arriscam a vida prpria, adestrando-se para salvar a vida dos outros. E eles vinham marchar debaixo das minhas janelas. A senhora do comandante me mandava por eles gulodices da sua mesa. A sua filha adolescente, que eu chamava de "tenente", tambm me visitava; era uma menina bonita a quem s vezes ajudava com os problemas da escola.
  Era como se eu tivesse uma famlia afetuosa ali, ao alcance da mo. J a minha prpria famlia ignorava tudo de mim; nem meu marido, nem meu prprio pai, tinha o direito de me visitar.
  Afinal, Getlio deu o seu golpe, o Brasil voltou  normalidade possvel, e ns, os "presos polticos", fomos soltos. Voltei para casa, mas confesso que sentia um pouco de saudades. No tinha mais as serenatas dos msicos sob as minhas janelas. No havia mais ocasio de ajudar os bombeiros estudantes, aflitos, em hora de exame, que me mandavam em bilhetinhos as questes mais difceis de portugus; bilhetinhos que eu devolvia com as respostas.
  Enquanto isso Getlio dava o seu golpe, tranqilamente, transformando o Brasil numa Itlia fascista, sul-americana. Quem poderia reclamar, ser preso com escndalo, botar a boca no mundo, estava incomunicvel por trs de grades. E s quando o Estado Novo se consolidou, garantido pelos generais do ento, fomos devolvidos s nossas casas.
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  Sa, afinal, mas fiquei amiga da famlia do comandante. E, principalmente, fiquei amiga dos bombeiros. Alguns iam me visitar nas folgas. E, infalivelmente, ao me encontrarem na rua, assumiam posio de sentido, e me batiam solene continncia. E eu, confesso, ficava morrendo de orgulho.
  Vim embora, os "meus" bombeiros foram substitudos, mas no posso encontrar bombeiros na rua, e sem querer, esperar que eles me cumprimentem. Logo, porm, recordo que como as folhas de vero, os bombeiros mudam e so substitudos pelas folhas novas.
  Outro dia parei o carro junto  calada: l vinham eles, no seu prprio carro, apressadssimos, tocando o sinal de abrir caminho. Pareciam muito jovens, alguns sorriam. E evidentemente no pensavam nos perigos que os aguardavam pela frente.
  E o carinho se renovou no corao da velha senhora.
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               oooooooooooo     

No se cantam pesares
      
  Ontem, perto de minha rua, houve um moo que no queria beber perfumes, queria beber veneno. Tomou um cido e ficou entre a vida e a morte. Hospital, lavagem de estmago, soro, remdios, conseguiram aliviar-lhe as dores que eram muitas; a vida continuava em perigo. Ele, porm, no aceitava esperanas, aproveitou uma ausncia da enfermeira, quebrou um copo e cortou os pulsos com os cacos de vidro. A enfermeira voltou a tempo; deram-lhe uns pontos nos talhos e ainda dessa vez foi ele salvo.
  Quem sabe, porm, o que ainda planeja o moo, depois que a cincia dos doutores, conseguir sarar o estmago queimado? E outra pergunta nos ocorre: por que os doutores, to ricos em remdios para o corpo ofendido, no arranjam algum remdio para aquele ferido corao?
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  Alis, falei em corao ferido por falar, j que tamanha nsia da morte supe desgosto proporcional, pois, no que se refere a esse moo inflexvel, ningum lhe conhece desgosto nenhum.  rapaz tranqilo, estimado, honesto. E se jamais sofreu desgosto, tambm jamais deu desgosto a ningum. No padece de defeito fsico, nem doena, nem repentes de loucura, nem incapacidade qualquer, do corpo ou do esprito. No  rico nem pobre -- por esse lado igualmente no se descobre pista esclarecedora.
  Ento, que mistrio, que motivo escondido far um moo desses procurar a morte com tamanha obstinao? Tdio? Tdio da vida, aos vinte e poucos anos de idade? Ou ser a falta do senso de proporo de que sofrem os muito jovens, que amplia assustadoramente qualquer desgosto e o transforma em desastre que s a morte aliviar?
  Os jornais andam cheios de suicidas jovens. Eles se matam por amor, e deixam bilhetes. Matam-se por zanga, por capricho, para castigar quem os magoa. Sim, acho que a principal explicao para o suicdio dos moos est nisto: eles se matam "contra" algum. E tambm pode ser apenas medo, medo deste mundo to estranho, medo dos quarenta, cinqenta, sessenta anos de luta e emboscadas que tm pela frente. Simples medo da vida.
  Mocidade e morte -- foi tema romntico por excelncia. Mas era a mocidade repelindo a morte, mocidade com medo de morrer, no mximo mocidade aceitando a morte, mas entre queixas e reclamaes, com os olhos cheios de lgrimas. O romantismo moderno , porm, mais cru, mais realista, mais brutal; os nossos jovens infelizes j no choram apenas, j no cantam pesares -- compram formicida. No receiam a tsica, no se carpem como Casimiro: quando sentem tanta pena que no agentam mais, destroem-se.
  O pacto de morte de namorados  terrvel, mas ainda se explica:  como o derradeiro paroxismo do amor. Mas a morte calada, solitria, o suicdio a sangue-frio de um moo sozinho, tem em si tanto de contradio e injustia -- creio que  o maior extremo de tristeza e solido a que pode chegar um ser humano.
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  H tambm velhos que se matam; a gente tem pena, mas entende. Afinal, de certo modo talvez tenham eles o direito de escolher a hora do fim, que possivelmente j lhes tarda. Fogem, esto cansados, enfermos: quem ousaria pedir contas a esses veteranos exaustos? Mas um moo, meu Deus, ser que no lhe significa nada acordar de manh e sentir o sangue quente nas veias, os msculos fortes, os ossos jovens, o gosto de respirar, o desejo de comer, de abraar, de caminhar, de brigar, de fazer coisas com as mos, com o corpo, com a alma? Ser que a alegria animal da vida no tem mais fora que os seus desajustamentos de novato, seus terrores, seu nojo?
  O fato  que a cada moo que se mata, a gente, que  mais velho e continua vivendo, no se pode livrar de um incmodo sentimento de culpa. Aquilo di no nosso corao como um erro nosso, um descuido -- uma responsabilidade mal cumprida. Parece que aquele  o filho que no tivemos, que ficou enjeitado no mundo e partiu porque se viu s, porque ns no o encontramos, no lhe seguramos a mo abandonada, no lhe demos o carinho que ele pedia e no achava.

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Prego de biela
      
  Voc passou dos 40, sente que est engordando e ficando preguioso. Como tem carro (e a aquisio do carro foi uma etapa importante na sua vida) comea a pensar em fins de semana na serra ou  beira-mar, tudo distante. Tem serra e tem beira-mar aqui mesmo, no nosso nariz. E especialmente belas; mas voc assume a posio de que tudo que fica perto no tem graa, no tem *appeal*.  preciso viajar algumas horas para tirar do corpo e da alma a poeira da cidade. 
  No entusiasmo da primeira hora voc pensa em adquirir um cantinho numa praia distante ou numa serra fria. O que voc no sabia  que essa operao de adquirir esse "cantinho seu" iria lhe custar sangue, suor e lgrimas. Talvez falando em sangue eu exagere, mas no suor e nas lgrimas, falo verdade verdadeira. O suor e tambm a gasolina voc gasta na procura. Tudo que parecia to perto, de repente fica longe. E se  levado por estradas ruins e o nosso carro, que at ento se mostrava to fiel, comea a dar pregos maliciosos em horas indevidas e em geral longe de qualquer socorro. Outro 
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dia ouvi uma cantiga que dizia "a saudade que sente o nauta ao partir".  muito parecido com o desespero e a solido que voc experimenta diante de um enguio inesperado, que lhe chega sem leno e sem documento,  s enguio e nada mais. Voc e o motorista (em geral seu marido) perdem-se em suposies. Ser prego de biela? Expresso que um dia voc ouviu de um motorista amigo. Mas dentre os cinco mil diversos ferrinhos que compem um carro, qual deles ser a biela? No caso de ser mesmo um prego de biela. Ah, meu Deus, como  variado e adverso o mundo da mecnica. Quando adolescentes ns andvamos num cabriol puxado pelo cavalo "Bezouro". Tudo era to simples, nunca ningum falava em biela. E quando, rarissimamente, se rompia um dos arreios do cavalo, havia sempre um pedao de cordo para o conserto. 
  Bem, voltando ao mundo atual. Todos esses aperreios, alis, so conseqncias do deslumbre pela sonhada casinha de frias. E de repente voc descobre que est odiando a idia daquela casinha de frias. Mas agora  tarde, voc j se comprometeu muito. Amanh vai aparecer um homem que traz plantas e preos de um terreninho que, segundo ele,  a realizao dos seus sonhos. E como  que esse cara sabe o que  a realizao do meu sonho? Ser que todo boboca que se apaixona pela idia de ter uma casa de frias  feito nos mesmos moldes dos seus colegas de sonho? E o corretor que lhe oferece o terreninho sabe perfeitamente como funciona sua alma e seus desejos, segundo voc pensou antes? Ainda bem que esse tempo de negociaes dura muito. Se voc tem sorte, descobre subitamente, que voc est muito feliz no seu apartamento ou na sua casa e que encara com horror qualquer busca ou aquisio na rea imobiliria. Voc, se sente ento um homem ou uma mulher livre. At que num fim de semana  convidado para almoar um peixe, numa casa a alguma distncia do Rio. O seu amigo fez a casa entre jardins e o item jardim no fazia parte dos sonhos anteriores. Minha Nossa Senhora, quando voc tinha 15 anos fez um jardim de rosas e bugaris. E to bonito, mas to bonito, que fazia a admirao das visitas. Seu pai, vendo voc cavoucar e adubar a terra (seu pai, tambm era eminentemente um sonhador), j via as rosas colhidas em boto e vendidas s dzias para os casamentos ricos na cidade. Na realidade, cavoucar a terra era muito ruim, estraga as unhas -- alm de quebr-las, deixa debaixo delas um halo de terra, quase impossvel de tirar. (As luvas para jardinagem s apareceram mais tarde).
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  Mas voltando  seduo do peixe, pescado e cozido pelo meu amigo: voc j tratou de peixe fresco, escamou, estripou, lavou com limo, temperou e por fim fritou? Ento sabe que  uma tarefa odiosa, alm do cheiro quase impossvel de tirar. E a, enquanto passa limo nos dedos pensa que a idia da casinha, fora das ruas do Rio,  iluso perigosa que levar voc a extremos de comportamento jamais pensados. E acaba aceitando o convite de outro um amigo que no gosta de pescar, que no sabe cozinhar, e te leva a um restaurante especializado, onde tudo  perfeito. E a comea a sabotagem dos seus sonhos, da casinha pequenina, de peixe pescado pelo marido e cozinhado por voc.
  Outra lio que se pode tirar destas consideraes  que a vida sem sonhos  muitssimo mais fcil. Sonhar custa caro. E no digo s em moeda corrente do Pas, mas daquilo que forma a prpria substncia dos sonhos.

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<83>      
Velhos carros
      
  O primeiro automvel que possu na vida custou dois contos e quinhentos. *Overland*, capota de lona, no era de segunda mo, mas de stima ou oitava. S tinha um defeito grave: quando se arriava a capota e o carro estava correndo, ela, a capota, no segurava bem no seu lugar e ficava flutuando atrs, como cauda de cometa. No mais era um bom carrinho, do qual s paguei mesmo a primeira letra, de 250 mil-ris.
  Meu Deus, eu tinha dezenove anos e ocupava o meu primeiro, nico e fugaz emprego pblico, com 400 mil-ris por ms. Mas com dez dias de motorista fiz o meu primeiro desastre, derrubei duas colunas da varanda de casa e quase sepultei sob os escombros meu pai, que ficava a bracejar e a dar instrues enquanto o telhado lhe caa sobre a cabea. Ele a fez chantagem: pagava os prejuzos, responsabilizava-se pelas nove letras restantes, contanto que eu jurasse nunca mais botar as mos numa direo -- isso tudo sob a alegao que eu, "alm de maluca era cega" -- verdades ambas parciais.
  Relutei, mas a presso era forte e o emprego interino. Curioso  que cumpri o juramento extorquido e at hoje nunca mais guiei um carro. Passou o tempo, fiquei muitos anos andando em automvel dos outros, principalmente o velho *Hudson* da famlia, cuja especialidade maior, quando voltvamos das festas para casa, no stio, era matar raposas. Fascinadas pelos faris, elas vinham botar a cabea bem debaixo do diferencial. Eu tinha horror quele esporte, mas os rapazes adoravam.
  At que em 1941 entrou na minha vida um Chevrolet 40, preto, agente seno promotor de radicais transformaes nessa dita vida, inclusive uma memorvel viagem a So Paulo e outras viagens menores porm no menos memorveis. Era um carrinho ensinado que,  volta de chopadas e cantarolas no Bar Recreio, atrelava-se fielmente  traseira de um bonde, para no errar o caminho e no sofrer batidas. Tinha nas costas do encosto dianteiro uma profunda mossa, que o proprietrio gostava de mostrar aos caronas, recordao de uma cabeada do poeta Vincius de Moraes.
  Veio a guerra, o nosso Chevy esteve vai-no-vai para levar gasognio; os oramentos curtos o salvaram dessa indignidade. Mas tudo tem um limite e, chegado o ano de 1947, o amor  vencido pelo poder econmico e trocamos com o irmo rico o nosso Chevrolet 40 pelo veculo revolucionrio que era ento o jipe -- um *Willys* cor de oliva tirado novinho da agncia pelo preo de 
 Cr$39.400,00. Ah, as infinitas possibilidades de um jipe nas estradas do nosso amado Brasil! No houve ladeira de Ouro Preto, precipcio da famigerada serra da Atafona, atoleiros do Vale do Paraba e do Paranapanema que no enfrentssemos. A poeira vermelha nos cobria como a um guerreiro tapuia com a sua pintura de batalha, e de guerreiros tnhamos no s a cor, mas o nimo.
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  Que o digam as carcaas de antas e de caititus e outros trofus carregados pelo jipinho nas ribanceiras do ento selvagem Iva! Foi o nosso jipe o primeiro no Pas a usar coberta rgida, de madeira compensada, modelo importado por um fabricante que no o utilizou por antieconmico e nos vendeu por dez contos de ris.
  Infiis so os coraes, at mesmo os de donos de jipe: com tanto bem que lhe queramos, mas o coitado dera para sofrer de uns tremeliques que se chamam "ximes" e tivemos que nos separar. Vendemo-lo ao primo Jesus pela quantia de 40 contos, mas levava dois pneus novos, de quebra. E ento adquirimos um *Plymouth* 51, cinza-nuvem, que foi o orgulho da nossa carreira automobilstica.
  Levou-nos ao Uruguai; foi ao Cear ida e volta, varando os sertes com o desembarao de tanque de guerra. No tinha balsa de rio que o assustasse, nem montanha, nem areia. Cabo Frio era o seu terreiro, Estado do Rio, So Paulo e Minas seu passeio dos domingos. Nunca deu um prego feio, nunca nos deixou na estrada. Mas a vida til de um carro, como a de um cachorro,  curta. A tristeza de quem ama cachorros e carros  perd-los, passados alguns anos.
  E chegou o dia de vender o Plymouth. Custara 134 contos, com rdio era 140, mas dispensamos o rdio. E pedimos 600 contos por ele. Veio um moo simptico fazer o negcio. Regateou, regateou, diminumos dez contos, depois outros dez. E a o moo abriu um embrulhinho que trazia no colo, tirou dele vinte contos e nos deu o resto. Tinha os seiscentos, o danado, mas sabia negociar. At o dia de hoje, fiquei com aqueles vinte contos atravessados na garganta.

               oooooooooooo
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Amor & poder
      
   sempre um mistrio para ns, os de fora, a motivao que leva algum j instalado na vida, s vezes mesmo um vitorioso, a abandonar suas ocupaes normais ou a sua carreira para se atirar  perseguio de um cargo de poder. Quantas vezes vemos um mdico famoso, um advogado conhecido, abandonar o cargo ou profisso para se entregar s incertezas de uma competio eleitoral. Ele ou ela (porque o fenmeno tambm se d com mulheres) so capazes de abandonar todo um passado de trabalho e estudo para se atirarem  aventura de uma eleio.
  Aquele doutor de larga clientela, aquele exportador que ficou rico vendendo algodo para o exterior, de repente se v seduzido pelas incertezas, de uma eleio, no digo apenas para um grande cargo, mas at mesmo para uma simples cadeirinha de vereador  Cmara Municipal. Ele que j tinha tudo na sua profisso antiga sente entretanto que a tentao  mais forte que as adquiridas garantias. Mas no resiste. Por qu?
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  Creio que a aspirao maior do ser humano  ser amado. No por uma s pessoa, mas por muitas pessoas e, delrio mximo, pela maioria dos seus concidados. Foi mesmo essa aspirao ao amor de todos que criou a idia da competio eleitoral. O tirano que se apia na fora bruta dos seus soldados  um inseguro. Enquanto aquele outro que tem o voto da maioria dos patrcios  o escolhido, o preferido, o dileto, em uma palavra, o eleito.
  Disso se conclui que realmente a maior aspirao do ser humano  conquistar amor. O comandante de um exrcito em campanha no se satisfaz com a simples e cega obedincia dos seus soldados; o que ele deseja mesmo  ser amado pela tropa, tornar-se cmplice de todos, ser, de certo modo, a representao na sua pessoa dos desejos e aspiraes dos milhares de homens que comanda.
   por isso que gosto de dizer que, antes de quaisquer outras aspiraes -- dinheiro, poder poltico, comando -- o homem, na verdade, deseja apenas ser amado. O general estudioso, temido, conhecedor de todas as regras do ofcio, morre de inveja do sargento ignorante que a tropa ama e aplaude.  esse amor ao amor a causa da inveno da democracia. Qualquer chefe ou rei troca de bom grado, a obedincia de vrios milheiros de soldados pelo aplauso da multido em praa pblica.
  O ideal dele, na verdade,  somar as duas coisas -- o aplauso e a obedincia -- mas se for preciso escolher fica, sem hesitao com o aplauso, que significa amor.
  Os grandes tiranos e os grandes generais -- Napoleo, Hitler, Nero, Stalin -- acima de tudo se imaginavam amados. Costumavam se dirigir aos soldados que mandavam para a morte como a filhos diletos que lhe devolviam um direito indiscutvel de poder.
  E o pior  que a tropa, a multido, o povo, se acumpliciam de boa vontade a essa exigncia do poderoso, at mais, at mais o povo dificilmente confere o poder a quem no lhe pede amor.
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  Qualquer soldado de Napoleo correria todos os riscos por uma palavra carinhosa do Imperador. E o curioso  ver como almas estranhas e deformadas como a de um Hitler, por exemplo, so capazes de arrebatar a confiana e at mesmo o carinho cego da massa dos seus concidados e governados.
  Por isso tudo se v como o ser humano, na verdade, aspira realmente ao bom e ao belo. Todos os tiranos chegam ao poder criando nos sditos a convico de que esto a reparar uma injustia, a consertar um erro, a devolver um direito de oprimidos: os oprimidos, claro, sero eles prprios que buscam virar as coisas e tornarem-se, eles mesmos opressores. Engraado que em todas as guerras o povo de cada nao encara as suas aspiraes, por mais absurdas e injustas, como um direito inegvel. Porque o povo, como todo ser humano, quer ter sempre a convico de que s age em defesa de um direito legtimo. Caim mata Abel no por truculncia e maldade, mas porque o irmo lhe ameaava o direito de primogenitura. Em todas as guerras, desde o comeo do mundo, o confronto  sempre idntico ao de Caim e Abel.
  Hitler alegava s defender os direitos legtimos de um povo superior que por seus dons de cultura, operosidade, capacidade de trabalho, eram donos do privilgio de comandar a Europa dbil, corrompida e preguiosa. Sabiam-se, os alemes, por direito de nascena, os mais puros de raa, os mais belos de fsico, os mais fortes de inteligncia.
   singular como os grandes condutores de homens no eram belos de fsico, nem superiores intelectualmente. Eram apenas homens astutos que descobriram e aperfeioaram os mtodos de seduzir multides.
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   quase como saber criar e motivar os ces de caa:  mostrar aos ces de caa humanos a cegueira e a credulidade das multides. Basta levantar uma bandeira, tocar um clarim, bater um tambor, os homens acorrem cegamente, sem discutir de onde partiu o chamado, quem impe o sacrifcio.  como se todos ns, no fundo, sentssemos que nascemos apenas para obedecer a um chamado, e obedecer docilmente, a obedecer a qualquer um que nos convoque para a vitria, mesmo que na verdade, nos convide para a morte.
  A concluso humilhante  que,
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 todos, homens e carneiros, sentimos que nascemos para fazer parte de um rebanho.
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Uma histria de Natal
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  Quando eu morava na Glria, perto da minha rua moravam muitas moas de diferentes profisses -- funcionrias, manicuras, comercirias, enfermeiras. Tinha uma que trabalhava de noite e a princpio at maldei, porque ela usava umas calas compridas muitssimo justinhas, dessas que parecem malha de bailarina; nos ps, sandlias douradas; na cabea, um leno estampado; uma grande bolsa a tiracolo e se tocava para o Largo da Glria. Mas depois no maldei mais porque vi, sob o leno da cabea, o cabelo todo enrolado em rolinhos, como se usava ento nos cabeleireiros. Ora --  elementar meu caro Watson --, ningum vai fazer o que se poderia pensar que ela fosse -- de rolinhos no cabelo.
  Uma tarde nos encontramos na banca de jornais: ela apanhou a revista que derrubei e fez amizade comigo. Chamava-se Lavnia. Ia para o ensaio, pois o que ia fazer noturnamente no Largo da Glria era justamente apanhar o nibus que a levava ao teatro. Trabalhava de corista, numa pea horrvel que s dava vez para a estrela, a vedete, como se dizia. (Isso foi nos tempos ureos do teatro de revista, o teatro rebolado como passou a ser chamado). "A senhora nem calcula, uma coroa com bem quarenta anos, cheia de dentes postios, o mai  de barbatanas, as meias de malha de ao para agentarem o aougue que est todo despencando! O coregrafo j disse mesmo que ela devia ser guardada em frigorfico para ver se endurecia um pouco mais!"
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  Ao contrrio da coroa, "estrela" era evidentemente a corista Lavnia, e pelo que parecia, corista mesmo excelente. Tinha as longas pernas do ofcio, cabelos vermelhos, uma cara de boneca plida: s se dava ao trabalho de pintar o rosto -- me explicou -- quando entrava em cena. De dia tinha aula de bal e me confessou que seu secreto desejo era aprender a falar ingls para tentar a vida nos Estados Unidos. No possua famlia no Rio, ficou tudo na pequena cidade de Minas, de onde ela saiu para fazer carreira aqui.
  Disse que gostava de convites e presentes mas nem sempre aceitava -- homem quando d est mais  pedindo. No passava, contudo, sem namorado, mas namorado mesmo, e no "caso": caso atrapalhava a carreira.
  Com aquele corpo que Deus lhe deu, j recebera vrios convites para fazer strip mas tinha horror. Esse negcio de pouca roupa no dava futuro. Tinha medo de duas coisas no mundo: de engordar e de se apaixonar -- por quem no merecesse,  claro. Pois se viesse uma paixo por um moo direito que ajudasse na carreira dela, seria um sonho. Um sonho, talvez impossvel.
  Falta acrescentar que tinha dezenove anos e medidas perfeitas, altura tanto, cintura tanto, quadris tanto, etc, medidas que ela sabia de cor e anunciava como se fossem um nmero de telefone; e tinha razo, alis, porque eram os seus ttulos, o seu capital de trabalho. Um dia lhe perguntei qual, na verdade, o desejo mais forte do seu corao -- afora os Estados Unidos.
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  Ela corou e acabou confessando: ser estrela de uma grande revista e descer a escada na apoteose, carregando duas toneladas de paets e plumas. De repente, Lavnia sumiu. Nunca mais nos encontramos na subida da rua, nem ela me procurou, como costumava, para me contar suas venturas ou desventuras na "carreira". Mas um dia, passados quase quatro anos, me telefonou e disse que vinha me fazer uma visita. Estranhei sua fala, um pouco mudada e algumas palavras de sotaque estranho, que no pude identificar. Mas vi logo que no era de ingls.
  Chegou me trazendo flores, mais gordinha, a pele amorenada, sem aquela palidez de boneca que eu conhecera. E ento me contou a sua histria. Naquela poca um grupo de teatro, acho que patrocinado pela Prefeitura, resolvera encenar um auto de Natal. Como ela era do meio e tinha aquela cara de anjo de procisso -- alm do bom comportamento -- foi convidada para representar Nossa Senhora. Ela at levou um susto -- "imagine, quem sou eu para representar Maria, me de Jesus?". Mas o pessoal insistiu e ela acabou topando. E foi lindo! A grande estrela no alto iluminando o tablado, ela com aquele manto que lhe chegava aos ps, o prprio diretor do espetculo fazendo de S. Jos; o Menino, um beb de loua que fechava e abria os olhinhos. E quando ela o tirou da manjedoura e o segurou no colo, a cena foi to real que todo mundo ficou emocionado e as lgrimas lhe desceram, duas a duas, pelo rosto.
  Aconteceu que, entre os espectadores, havia alguns turistas, e entre eles um moo africano, que viera conhecer o Rio, acompanhando um colega brasileiro que trabalhava na mesma companhia de prospeo na Nigria. O moo nigeriano ficou encantado com aquela Nossa Senhora e fez questo de ir cumpriment-la depois do espetculo. Acabou por convid-la para comemorar o Natal num bar de Copacabana. E foram: ele, ela, o brasileiro que logo convidou sua amiga, que fazia a pastora do espetculo. O nigeriano falava um pouco do portugus que aprendera com o colega. Depois de certa hora, o brasileiro saiu com a pastora e ficaram conversando at quase de manh. Marcaram encontro para o dia seguinte e a saram s os dois. Ele era escurinho -- bem escurinho -- mas to gentil, to bem educado, desses de puxar cadeira para a gente se sentar e de trazer flores, to diferente dos rapazes que conhecera at a, que ela ficou balanada.
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  No terceiro ou quarto encontro j estavam apaixonados. Mas poucos dias faltavam para o final das frias dele: precisava ir embora, voltar ao trabalho. Foi quando ele lhe trouxe um anel e falou em casamento. Apesar de tudo, ela estremeceu: casar, abandonar a carreira, o seu Pas, ir morar numa terra de que s ouvira falar depois que o conheceu, era muita coisa junta de uma vez s. Mas a se lembrou que na cena em que levantava o Menino nos braos lhe fizera um pedido, do fundo do corao: que alguma coisa muito boa e muito bonita lhe acontecesse naquele Natal.  verdade que, na hora, estava pensando mais na sua carreira. Mas Ele, que to bem conhecia o corao das pessoas, talvez estivesse pensando em outra coisa.
  E, para terminar a histria, contou que estava casada, morando na Nigria, e que viera ao Brasil trazendo o primeiro filho para conhecer os avs. Sim, o primeiro filho, porque o segundo j estava a caminho.
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Voc tem medo da morte?
      
  Eu me imaginava uma pessoa brava, sem medo de nada, principalmente da morte! E tinha at um certo orgulho disso. Mas certa manh, no faz muito tempo, me desenganei. J ia atravessando a minha rua, quando um carro dobrou a esquina e veio em cima de mim. O moo que o dirigia conseguiu parar, mas chegou a tocar com o seu velho pra-lama a barra da minha saia.
  Eu recuei, devo ter dado um grito, e me senti tremer da cabea aos ps. O moo, conforme contei, conseguiu parar a tempo -- devia ser um bom volante, mas gritou comigo: "A senhora no devia andar sozinha na rua!". Fiquei furiosa, mas me controlei. Minha vontade era de pegar a sombrinha que trazia debaixo do brao e quebr-la na cabea daquele grosseiro, quase meu assassino.
  Mas me contive, mesmo porque estava com as pernas trmulas e o meu lbio superior tremia tambm. O motorista, vendo que eu no reagia, engatou a marcha, me olhou ainda com raiva e partiu. Minha decepo era comigo mesma. Eu, que me imaginava valente, ainda tremia do susto. Tive que confessar a mim mesma que tivera medo, muito medo.
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  De novo apelei para as reservas de coragem, e tomei caminho, embora as pernas ainda me tremessem. E a, para conforto do meu orgulho, resolvi fazer uma entrevista entre os conhecidos para saber quem tinha medo da morte: seria s eu? O primeiro que interroguei foi o meu mdico. E ele respondeu, sem demorar, que talvez por viver em contato com gente que estava  morte, tinha, sim, medo dela. Bem sabia como a "Magra" nos ronda, preparando o bote. "Lembre-se que para ns, mdicos,  ela a grande inimiga".
  O segundo a quem fiz a pergunta: "Voc tem medo da morte?", foi a um padre, meu velho amigo. E ele respondeu sem constrangimento: "Tenho medo, sim. Mais do que qualquer outro, sei o que nos espera do outro lado. E a mim, portanto, tudo ser cobrado em dobro". Eu estava tomando gosto pela inquirio e verificava, surpresa, que as pessoas no se envergonhavam do seu medo, antes o achavam um direito natural.
  Meu novo interrogado foi uma professora, idosa, severa, a quem os alunos odiavam. E ela confessou: "E como! Acredito que tudo no se acaba com a morte, sei l o que me ser cobrado, nessa hora!". Era uma velhota magra, culos de grau forte, acostumada, ela sim, a fazer medo aos outros. Eu ainda indaguei: Tem medo de sofrer muito? E ela: "No, eu tenho medo  da passagem, ou da condio de morto. Eu acredito na alma imortal".
  Logo depois encontrei um velho conhecido ateu, com fama de comunista. Fiz-lhe a pergunta, ele coou o queixo, respondeu devagar: "Eu sou um ateu pblico, declaro sempre que a vida  o nosso bem mais precioso. Como no ter medo de o perder?".
  Sa mais tarde, j acompanhada, passamos pela loja onde trabalhava uma moa minha conhecida. Eu lhe disse que estava fazendo um inqurito para meu jornal; e perguntei: "Voc tem medo da morte?". Ela ficou plida: Pra que essa pergunta? Estou mesmo com cara de quem est para morrer? Expliquei que no. Era s curiosidade. Afinal, se todos temos que morrer, por que esse medo todo?
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  A moa, que empalidecera, me confessou em voz baixa: "Tenho muito medo. Na minha famlia todos morrem de cncer e morrem cedo. Minha irm morreu, mais nova do que eu sou hoje". Fiz uma pausa nos interrogatrios, mas logo depois tive que ir ao escritrio de nosso procurador, que me chamou para assinar uns papis. Fiz-lhe a pergunta. E ele: "Morro de medo. A vida  boa e ningum sabe ao certo o que vem depois dela".
  Todos me davam uma razo para os seus receios. Mas ficava claro que todos, tambm, o que temiam era mesmo o fim da vida. Que  ruim, sofrida, mas acaba em mistrio. Mistrio to insondvel que no h religio, no h crena 
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 capaz de querer, sequer, levantar-lhe o vu. Mente quem diz que no tem medo da morte.
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Existe outra sada, sim
      
  Todos os vem: sai nos jornais, na TV, no cinema. Dormindo em cama de jornal, nos vos de entradas dos prdios, debaixo de marquises. Cobertos, s vezes trs e quatro deles, com um retalho de lona, um farrapo de cobertor. De dia fazem ponto nos sinais de trnsito, oferecem ao pessoal dos carros drops, lenos de papel, quinquilharias, limes. Ou frutas da estao, j meio passadas, adquiridas nas xepas das feiras, depois das onze da manh.
  So os meninos da rua, como todos sabemos. No tm cor certa -- podem ser louros como filhos de gringo, pretos, mulatos, sarars, caboclos tipo pia de ndio -- ou misturado disso tudo.
  Falantes quase sempre, raros os taciturnos nunca os vi gordos; mas tambm nunca os vi esquelticos. Talvez governe a fauna deles a mesma lei que rege todas as faunas; s sobrevivem os mais fortes. Os mais dbeis com certeza ou morrem logo ou, Deus ajudando, ficam em casa.
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  A gente fala "os meninos" desobedecendo  nova lei do feminismo, que no aceita nos substantivos masculinos, mesmo os coletivos, os indivduos femininos (perdo, deveria dizer indivduas?). Assim, explique-se que tambm h meninas no meio deles. So "meninas da rua", pois. 
  Elas so mais agressivas, apelam para o transeunte, tem as suas manhas. Algumas, aparentemente pelos doze ou treze anos, esto visivelmente grvidas. Outras carregam o filho no brao ou no quadril.
  Dia desses vi uma delas dando de mamar ao nenm, sentada no meio-fio. Era um mistrio de onde sairia o leite -- no se via peito nenhum, s um pequeno boto negro que a criana sugava, desanimada. Era como duas crianas que brincassem de mame e filhinho.
  Meu Deus -- fora todo o sentimento que se sabe, de culpa, de d, de vergonha, o que mais me fazem sentir os meninos da rua  um desejo certamente impossvel. Junt-los todos num trem, num comboio de nibus, lev-los assim em bando, sem disciplina nem bedis sem pito nem sermo, s convidando, para o campo, para uma dessas largas, velhas fazendas, onde houvesse comida, espao para eles -- e em certa medida (por que no?) at carinho. O povo do interior d valor a crianas -- na cidade  que elas so lixo. 
  O primeiro argumento que se alegara contra esse meu impulso  que as crianas no vo querer ir. Talvez. Mas no querem ir presas, apanhadas em cambures,  fora bruta, como ces de carrocinha.
  Quem sabe, porm, se convidadas? Indo por experincia, como os meninos que tm casa e pais vo para as colnias de frias? Sem obrigaes, sem sineta, sem portes fechados. Terra livre, gua, banho de rio, anzol, bodoque. Bichos, cavalos, burros, carneiros, galinhas. Vacas.
  Tudo sob a lei do voluntariado. Eles vo se querem. Mas talvez os que retornassem  rua, de repente sentissem saudade da cama, da comida certa, dadas sem exigncia de retorno, sem reza obrigatria. 
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  Ah, sei que tudo so utopias, sonhos. Talvez, talvez, talvez,  s o que digo. Mas sem sonho no se faz nada. O que so as grandes cidades, suas montanhas de edifcios, o terrvel progresso, seno sonhos realizados de alguns ambiciosos? Uma gigantesca hidreltrica -- Itaipu, por exemplo -- tambm  um sonho que comeou numa cabea de engenheiro, cresceu no papel e se ergueu em pedra, gua e fora. 
  Podem dizer o que quiserem, mas me recuso a crer que os meninos da rua no tm soluo, fora a polcia. 
  Acabar com a misria  a primeira soluo. Mas enquanto no se acaba com ela, por que no se tenta outra sada? Sem truculncia, sem represso, s com braos abertos?
  E mas quem -- que rico, que poderoso, que santo, ter esses braos prontos para receber os nossos meninos da rua?
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Falem tambm na msica, nas 
  flores e nos amores
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  O locutor aparece na TV, charmoso, sorridente e comea o noticirio. Mas logo nas chamadas j est soltando em cima da gente os quatro cavaleiros do Apocalipse -- a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte.
  So os massacres entre israelenses e palestinos, os atentados dos terroristas bascos,  a criminalidade na frica do Sul ameaando a volta ao famigerado regime do apartheid,  o mal da "vaca louca" se espalhando pelo mundo, so as drogas, so os *skin-heads*, no seu idiota exibicionismo, tatuando-se com cruz gamada -- smbolo de tantos horrores.  a multiplicao da Aids pelo mundo. Os avies que caem, os navios que afundam, os trens que viram, fazendo cada qual suas centenas de vtimas. Desgraas  que no faltam para contar e comentar.
  E o Brasil contribui com parte larga no rol das aflies. Que vo das secas do Nordeste -- agora no s no Nordeste -- aos conflitos agrrios, passando pelos escndalos do Congresso, as CPI~s, o desemprego, o custo dos remdios -- ai dos velhos! -- a violncia, a m sade do povo. Os desastres ecolgicos, a ameaada sobrevivncia dos ndios, a destruio das florestas!
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  Ser que no planeta e no Brasil no acontece nunca uma coisa boa, para compensar? Se acontece, eles no contam. "No  notcia". Novidade boa no interessa. O que eles querem  ver sangrar.
  O nosso saudoso mestre Rubem Braga, numa crnica famosa tratou deste assunto com propsito e poesia. No adiantou. A mdia impressa e eletrnica s quer mesmo o choro e o ranger de dentes.
  Bem que, s para equilibrar, poderiam noticiar alguns fatos amenos do cotidiano. Por exemplo, que os passarinhos do Jardim Botnico esto dando festa (eu vi). Que neste vero a florao das orqudeas foi promissora.
  Que a mocidade, nas praias do nosso imenso litoral atlntico, mostra-se cada vez mais linda e dourada.
  Que o serto est lindo, verde e florido, os audes cheios, j comeando, promissora, as safras de milho e feijo.
  E por que no se apresenta na TV a imagem da revoada matinal das crianas em direo s escolas, os milhes que vo s aulas (apesar dos outros milhes que no tm escola para onde ir,  verdade). E os ricos rebanhos de gado do Centro-Oeste, graas a Deus livres da febre aftosa e do terrvel mal da "vaca louca", e os queijos de Minas, e as uvas de irrigao do So Francisco, e os abacaxis da Paraba, e as trutas da Serra da Bocana? Clamavam antes contra o besouro bicudo que iria exterminar os algodoais do Nordeste; mas agora ningum se apressa em informar que o bicudo est acabando.
  Eu no sou uma otimista incondicional antes pelo contrrio. Mas assim mesmo sinto que as cantigas andam no ar, que h por a muita gente feliz por viver e ser moo. Ou por ser velho e sobreviver.
  A no ser propaganda ideolgica ou propaganda paga, s  notcia o que vai mal. Fala-se bem de Cuba, l  o Paraso, claro. Tem muita gente interessada em espalhar isso. Mas, fora Cuba, o que acham eles que vai bem? (Falei em Cuba por falar,  vezo antigo, mas no posso deixar de mencionar essa mgica reapario do Buena Vista Social Club, com o lastro da sua riqussima msica cubana, que vem conquistando at as novas geraes.).
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  Ningum est pedindo para se pintar este nosso mundo sofrido e belicoso como um Jardim de Amores. Mas h que dosar, ao menos.
  Se, por exemplo, um grande desastre areo tem que ser noticiado, a ningum ocorre a idia de lembrar que, na hora mesma do acidente, vrias centenas de milhares de avies voavam em segurana, levando milhes de passageiros a bom destino.
  Falei acima em ideologias, mas nem creio que seja mesmo ideolgica essa sinistrose compulsria que ataca os nossos meios de comunicao.
  Ser, antes, uma geral tendncia masoquista. A paixo pelo sensacionalismo mrbido. O apelo s bruxas, esse apelo pra baixo e profundo que a mocidade chama com tanta propriedade de baixo astral.
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Enxertando a vida
      
  A gente fica pensando: ser que a natureza previa a tentativa de transplantao de rgos? Se no a previa, por que teria imposto ao organismo animal tantas e to intolerantes defesas, essa xequenofobia, essa cortina de anticorpos a fechar as fronteiras da carne, proibindo qualquer promiscuidade orgnica com outro indivduo, seja embora o doador da mesma espcie, da mesma raa, do mesmo tipo de sangue do receptor? Promiscuidades, diz a natureza, s mesmo para o fim de reproduo -- e pelos canais competentes. O que  evidente  Deus Nosso Senhor considerar o reino animal a sua mais perfeita obra-prima, cada indivduo, cada espcie, cada srie, tudo timo e no susceptvel de alterao.
  Chega-se mesmo a duvidar da teoria da evoluo, na qual se acredita mais por uma questo de f, pois v de verdade nunca vimos, nunca fomos testemunhas de nenhum processo de evoluo em marcha num organismo vivo. Tanto quanto me deixa saber a minha ignorncia, tudo ainda so teorias. As alegadas provas se apresentariam em espcies extintas, em fsseis; mas depois do bicho morto virado pedra, passados milhes de anos -- trata-se pelo menos de um testemunho longnquo, no ? No reino vegetal no h tanto rigor. Milhares de vegetais pegam de galho e recebem enxertos de variedades diferentes. A glria da jardinagem, da horticultura e da pomicultura est mesmo na criao desses hbridos por enxertia. H organismos animais, como a ameba, que se dividem, e cada pedao continua vivendo como indivduo novo; e h lagartixas que conseguem fazer crescer outra vez a cauda decepada.
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  Mas encostar a parte seccionada de um ser na parte seccionada de outro ser, e aquilo pegar -- parece que ainda est longe. Eles dizem que fazem ces com duas cabeas em laboratrio, mas cad esses ces? Podem viver uma vidinha artificial e rpida, mas l mesmo se acaba. No vinga.  como eu dizia: Deus considera perfeitos os homens e os bichos tais como os criou e no admite alteraes na sua morfologia. E at mesmo hbridos por cruzamento a natureza tolera, mas no gosta, tanto que os faz estreis. Realmente, se se pudesse interferir com morfologia das espcies, mal se pode pensar a que fantasias loucas se entregaria a humanidade desvairada.
  Se a gente pegasse de enxerto como laranja-da-baa, numa hora de entusiasmo amoroso era capaz de fazer operao para ficar xifpago com o ser amado -- mas, e depois que o amor passasse? E os laboriosos que exigissem quatro mos para trabalhar mais? E a milionria excntrica que ambicionasse a garganta da finada Callas? E as linhas de contrabando organizadas para oferecer delicados ps de espanholas a americanas ricas de p 42? E o ditador megalomanaco que montasse fbricas de supersoldados para os seus exrcitos -- homens com couraa de jacar, estmago jejuador de camelo, fora de cavalo e miolos de burro para, apesar de tantos dons, obedecer ao seu senhor? E no se diga que o homem no faria isso, que ele tem amor ao seu corpo tal como : -- o homem no tem amor a nada, o homem  doido. Tanto quanto pode, ele j se desfigura com tatuagens, com brincos, batoques, cicatrizes, e operaes plsticas de resultados duvidosos.
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  E para ganhar dinheiro, ento -- at j estou vendo quadrilhas organizadas para raptar crianas de gnio e lhes vender o crebro no cmbio negro. Mas parece que at as regras da natureza, dantes inflexveis, j comeam a dar de si: tudo indica que, em breve, os transplantes sero uma parte simples da rotina mdica. Oh, meu Deus, podia-se at criar o uso de dar o nosso corao a algum; no poeticamente, em devaneios de amor, mas mandar abrir de verdade a arca do peito e tirar de dentro o corao palpitando, e envi-lo congelado em papel de alumnio, 
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 como comida americana, para o ingrato ou ingrata ficar usando, j que nasceu sem corao.
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Prazeres
      
  Outro dia algum indagava o que a gente considera os seus maiores prazeres. Para uns seria viajar, para outros vinhos finos, ou lcool propriamente dito, disfarado em *scotch*; um jovem falou em dana, esporte, praia; alguns lembraram cinema, teatro, baralho, leitura, msica, a grande *cuisine*. Engraado, ningum falou em amor. Creio que estava implcito, para aquela gente bem criada, que amor no  prazer,  sentimento.
  Passada a conversa, fiquei pensando. Prazer ou felicidade, um estado de prazer continuado? E o que ser realmente a condio de felicidade, ou prazer continuado, para uma senhora -- a velha senhora? Digamos no um ms ou um ano, mas um dia feliz?
  Acordar cedo; quem passou meninice e adolescncia entre uma me madrugadeira e o colgio interno, fica sempre condicionado e jamais acorda tarde sem sentimento de culpa. Ento, digamos, acordar cedo espontaneamente. Olhar pela janela o sol j claro, mas ainda no quente; ablues, robe -- e a chega a hora verdadeiramente feliz do dia todo, que  esperada com um suspiro de antecipao. Um gole de caf preto e, dobrados junto  poltrona da sala, inviolados, os jornais do dia. O que antes era o prazer requintado de ver as manchetes, a previso do tempo, e depois comear a srio, sem interrupes a operao da leitura, agora j se comea com a alma inquieta.
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  Nestes tempos de uma guerra que se anuncia o que j  aquele prazer mrbido de encontrar nas manchetes novidades do *front*, notcias de atos hericos, de dramas e tragdias distantes. Eu no esperava, na minha idade, ver mais uma guerra mundial. Tudo parecia estar-se encaminhando para um longo perodo de paz, sob a nova hegemonia americana, construda sobre as runas da Unio Sovitica e com a China atrada para a rede do comrcio mundial. De repente aparece o fanatismo religioso, arrastando multides, desafiando a ordem, que, boa ou m era confortvel para todos ns. A incerteza sobre o destino da raa humana sai do campo da discusso ambiental e das experincias biolgicas dos cientistas do Primeiro Mundo e volta para o gabinete de emergncias militares.
  Depois dos jornais  a hora do trabalho; trabalho nunca  bom, no melhor dos casos  apenas sofrvel, e s vezes pode ser intolervel. Mas tudo tem um fim --  essa a nossa humana garantia -- e afinal, d-se o artigo para a secretria digitar e passar o e-mail. E a comea a ignorncia. Talvez seja preciso sair, aprontar-se, ir ao mdico. Durante todo tempo, telefone, telefone. Por dois telefonemas bons, daqueles de amigo que a gente identifica pelo gentil tocar da campainha, h cinco telefonemas chatos. E em redor da gente a vida urgindo. Nada pode esperar, as providncias, a lista das compras. No meio de tudo o almoo tarde, a comida de pouca caloria -- ou de novo o sentimento de culpa estragando o sabor do feijo e da banana frita, mal compensada pelo hipcrita adoante no caf.
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  Renovam-se as tribulaes, mas agora com outra pausa, no de recreio, mas de outros horrores: o jornal da TV nos apresenta os rounds desta nova guerra, com surpresas de novas armas do terrorismo tecnolgico do sculo XXI, cartas contaminadas com bactrias letais, respondendo a uma estranha caada a um homem s, como num filme de *western*, onde o bandido  romantizado e mitificado como um homem fantasma. Fala-se pouco, ainda, mas todos j temem o que pode ser um desfecho sinistro, a escalada nuclear desse conflito, com o surgimento de uma bomba atmica islmica.
  Mas enfim, depois das dez ou onze, acabaram-se as responsabilidades sociais ou domsticas da velha senhora, acabaram-se os noticirios. Rede. Livro. Um novo *pocketbook* policial, desses bem complicados ou algum bom livro de amigo; memrias de gente interessante, algum poema. Pelas onze, os barulhos da rua se acalmaram, amm. H silncio. A noite est fresca -- pela janela s vezes cai chuva (e d uma saudade danada da chuva batendo no telhado do serto). Parece que o livro ficou melhor -- a velha senhora, apesar das ameaas da guerra -- sente quase que  feliz. Pela uma hora adormece -- o sono que a idade 
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 cada noite torna mais leve. Dorme em paz, venceu mais um dia, pagou mais uma pequena prestao de vida.
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Esse estranho animal
      
  Ah, o animal urbano humano,  mesmo essencialmente gregrio, como os carneiros e as andorinhas. S esse instinto ancestral, que se traz enrustido nos ossos e na carne (ou nos nervos e na pele?),  que explicar nossa absurda paixo por morar amontoados em edifcios de mais de vinte andares, ou formigando pelas ruas numa massa fechada de carros que se entrechocam, se amassam, se batem com fria, matando e ferindo no apenas quem est dentro deles, mas o infeliz pedestre que no pertence  aristocracia rodante, e se arrisca pelo asfalto, territrio privativo das feras de rodas.
  Voc j estudou, do alto de um edifcio, um engarrafamento, l em baixo? No d para entender, por que eles se obstinam naquela fria impaciente, em se concentrarem todos na mesma pista, como se no mundo s existisse aquele caminho, como se fugissem de um perigo invisvel que por trs os aoitasse; a cada rua transversal entram mais carros -- em vez de sarem, fugirem, por aquele caminho aberto! Mas no, e voc v com espanto que eles desdenham as possibilidades de fuga, fazem questo de ficar no sufoco sem sentido, numa velocidade de cem metros por hora.
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  Outra comparao que nos lembram so aqueles enxames de abelhas africanas que atacam uma rvore, uma cerca, at um telhado, em vo cego, e ficam tentando se mover para diante ou para os lados, num zumbido que j parece um rugido; e do local onde se concentram caem muitas mortas, mas parece que isso lhe  indiferente, so tantas que nem podem olhar para as vtimas. Igualzinho aos engarrafamentos.
  Numa cidade grande qualquer pequeno embarao  uma tragdia. Se falta gua, se h uma pane na eletricidade, se os nibus se declaram em greve, tudo pra e entra em crise. Com as torneiras secas, mesmo s por algumas horas, os restaurantes no podem servir comida, nas residncias o pnico se instala, desde as crianas gritando que no podem ir para a escola sem escovar os dentes! E os hospitais que no tm como acudir os doentes -- sem gua? Pois embora a gente no seja peixe, a gua , depois do ar, o elemento mais indispensvel  nossa sobrevivncia. E faltando luz? J experimentou subir, sem elevador, ao seu apartamento no quinto, dcimo, vigsimo andar? E os que se arriscam, se arriscam  mesmo a um infarto, a uma crise respiratria, a todos os males que ameaam o citadino sedentrio, que s sabe "andar" sentado no carro, no nibus, na moto. Agora, em todas as cidades, anda o povo exigindo que lhe abram os metrs, subterrneos, onde podero continuar se engarrafando, descarrilando, debaixo da terra, como se no lhes bastasse o que fazem l em cima...
  E como cai a qualidade de vida na cidade grande. Desde o ar que se respira, poludo, envenenando a gua que vem (ou no vem!) pelos canos, o pequeno espao dentro dos apartamentos, o leite engarrafado, a carne congelada.
  O pior de tudo  que esse frenesi "civilizatrio" j est at perturbando a condio de vida nas cidades de pequeno porte. As ruas se enchem de carros e a maior glria dos prefeitos  instalar sinal luminoso nos cruzamentos. J no se pode comprar leite mungido nas vacarias; os supermercados j invadiram tudo, passaram at a se chamar de shopping e s vendem leite de caixa.
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  Creio que a psicologia do homem urbano pode se traduzir com especial fidelidade numa frase de Pedro Nava. Num baile carnavalesco no salo de cima do velho *High Life* (ah, saudosas dcadas passadas!), vestido num macaco caqui, Nava suava e sufocava empurrado e empurrando num cordo; a gente lhe props sair dali, ir para o jardim, l em baixo: "Aqui est muito quente, muito apertado!" E o Nava o suor em bicas, enxugando a cara na manga, parou um instante para recusar: "Mas eu gosto  do quente e do apertado!" E seguiu no cordo.
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Muito alm do rock
      
  Bem, de incio vamos declarar que o Rio, como sempre, continua lindo -- floresta, montanha e mar.
  Mas cheio de percalos. Acho que no Rio nunca se viveu to mal. O que no falta est ruim. Hospitais, conduo, escolas. E agora, a dengue. A bandidagem continua dominando as favelas e j descendo para as ruas -- e  a da pesada, a da droga, a que usa escopeta e metralhadora. Hoje nos recordamos da contraveno dos banqueiros do bicho, com seu cdigo de cavalheiros, como a vera inocncia.
  Felizmente a mocidade se segura. Ainda neste vero anda solta pelas praias, dourando ao sol, lindos. E -- vocs j repararam?  -- quando se instala dominante, uma ideologia, parece que a prpria natureza se dobra  voga. Hoje em dia, com a abominao universal pelo gordo, os corpos das pessoas se submetem  ideologia geral, e praticamente no se v moo gordo, e muito menos moa gorda, nas reas de exibio corporal -- praias, piscinas, academias.
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  Bem, claro que aqui, como em toda parte, os jovens gostam de rock, de pop-music, de rock pauleira e agora at de pagode que costumam escutar sem considerao de local ou hora, em decibis praticamente intolerveis. E tambm todo mundo sabe que realmente o rock no corresponde aos ideais meldicos das geraes mais velhas. Contudo, h qualquer coisa de fascinante naquele baticum primitivo, no tum-tum repetitivo, constante, que talvez se ligue direto s batidas do corao. E quanto s letras cantadas pelos roqueiros, at os mais venenosos, com as maquilagens de vampiro, as roupas inslitas, os cabelos fora do contexto, so na verdade uns versinhos simplesinhos e aucarados, quase que s falando de amor e solido. S que intercalados pelos brados e interjeies do jargo deles.
  Creio mesmo que o abuso frentico dos decibis de som, parte integral da cultura roqueira, seja talvez conseqncia ou desvio ao ainda mais intolervel barulho urbano que nos ataca nas grandes cidades. Vivemos todos martelados por uma desumana agresso sonora.  o trfego pesado de veculos na rua que nos sobe de janela adentro -- especialmente o explosivo escapamento das motos.  a msica em ponto mximo que sai das lojas, so os alarmes estridentes contra o roubo de automveis, so os tambores e baterias dos carros anunciantes de shows. E h os inimigos especiais, como os caminhes da Comlurb que trituram o lixo  nossa porta, naqueles seus imundos liquidificadores de refugos. E as serras, betoneiras, bate-estacas da construo civil? Tudo isso  que est levando a espcie humana a uma surdez talvez incurvel.
  Outro lugar-comum  acusar de analfabeta ou quase isso a mocidade em geral.  aquela velha histria de uma minoria dar m fama  maioria. Por cada candidato a vestibular que ignora os elementos da arte de escrever, h muitas dezenas de outros estudantes que vo de razoveis a bons, e h o aprecivel grupo dos timos.
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  H que pensar nas pssimas condies do ensino, professores mal pagos, sobrecarregados por turmas enormes e carga horria excessiva, eles prprios oriundos de escolas deficientes, geradas na onda da proliferao universitria que nos assolou o Pas. O mal no est na meninada, mas no sistema.
  E, assim mesmo, bem que eles sabem das coisas. Fique de lado escutando o que conversam -- as noes que tm deste mundo de alta tecnologia em que nasceram. Como se entusiasmam explicando a maravilha eletrnica da sua nova aparelhagem de som, as gracinhas do micro, e a Internet, meu Deus, o milagre! 
  Os que pendem para a ecologia, te espantam de repente com o que sabem sobre a gentica de bichos e de plantas, as estatsticas que decoraram a respeito das espcies em extino, a devoo enternecida que alimentam pelos precursores da defesa ambiental, como Jacques Cousteau -- um heri!
  , os meninos bem que sabem das coisas. Acontece que eles diversificaram as fontes de informao, que j no so apenas matria de livro e jornal. Deles  toda a mdia eletrnica.
  Meu palpite  que, se no derraparem em caminho, vai sair deles uma humanidade muito especial.
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A imagem do homem
      
  Vocs sabem, em dias de calor assim terrvel, como os que temos tido este vero, no Rio, penso s vezes se isso no ser um prenncio do fim do mundo. Pois os profetas no dizem que o mundo provavelmente vai se acabar pelo fogo -- ento? O cho nas caladas, nas areias da praia,  to quente, que a gente tem vontade de se abaixar -- e ver se no esto brotando dele pequenas chamas azuladas ou vermelhas. Dei essa idia a uns garotos que brincavam defronte ao prdio e eles se convenceram imediatamente, saram verificando, espreitando as fendas da calada, e alguns chegaram a "ver" linginhas ardentes de fogo, se erguendo tremulamente entre as pedras do calamento.
  Brasileiro em geral se orgulha em sermos "um pas tropical". Existe at samba (muito bom) proclamando isso. J eu, sonho em sermos um Pas glacial, geladinho, enevoadinho... Com as casas se abatendo sob a montoeira de neve, e os habitantes, adultos e crianas, s podendo sair porta a fora, encapuzados, enluvados, afogados em cachecis...
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  Perdoem, mas isso so devaneios de quem escreve olhando para um termmetro em cima da mesa, marcando 39 graus e meio... e  sombra! L fora, na rua, devem estar dando uns cinqenta!
  O consolo  a gente pensar que s o calor  fecundo. Plantas e bichos s proliferam a altas temperaturas. Quando o tempo esfria, eles hibernam, quer dizer, como que adormecem, s voltando a funcionar quando de novo chega o calor. E, meditando nisso, penso s vezes, hereticamente, que Deus Nosso Senhor no gosta muito do homem que tirou do barro. Talvez se arrependa muito do dia em que modelou Ado e Eva; talvez considere esse dia o do seu maior equvoco. Pois, dando inteligncia ao seu boneco de argila, deu-lhe a capacidade de divergir, de rebelar-se, de se imaginar coisa maior do que  na realidade.
  Decerto Ele se esqueceu de olhar no seu mapa do futuro, e assim no previu os tremendos aborrecimentos que estava a suscitar para si prprio. E ns somos bastante loucos a ponto de enfrentarmos esse divino arrependimento, no com pedidos de perdo e promessas de submisso, mas com petulncia, suscitando filsofos e demagogos que disputem os privilgios de quem nos criou...
  Entra agora pela janela uma ligeira brisa -- e me esfria a cabea. Retiro, arrependida, todas as bobagens que disse quando o calor violento me fazia ferver os miolos. Ah, que coisa boa  esse ventinho que me chega, trazendo com ele um leve cheiro salgado de mar. D pacincia at para olhar de novo o jornal, ler manchetes alvoroadas, discutir mentalmente as profecias catastrficas da oposio, que s nos prometem sangue, suor e lgrimas, decorrentes dos erros e iniqidades dos governantes. Como  difcil o equilbrio e a eqidistncia! Ou ser um erro essa disposio  tolerncia, que tudo permite? Os transformadores do mundo sempre foram personalidades radicais e intolerantes: vede at Cristo, aoitando os vendilhes do templo.
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  Bom, parece que o certo  fazer a separao judiciosa entre os que nascemos para obedecer e os outros que nasceram para dirigir e comandar. Os napolees se destacam inconfundivelmente; a sorte  que eles nascem em nmero menor do que ns, os outros, que nascemos para ovelhas de rebanho. Assim mesmo, quase todas as guerras (ou todas?) so sempre provocadas por um louco desses -- o j citado Napoleo, ou Csar, ou Hitler ou os mais recentes, que ainda no tiveram tempo para mostrar sua capacidade ofensiva.
  Com todas as nossas conquistas -- j se est pensando seriamente num foguete conduzindo homens, destinados a habitar Marte e parece que o problema ainda no resolvido  como os trazer de volta. Pois eu confesso que no tenho iluses quanto  possvel habitabilidade de Marte. S se o povoarem super-seres, pois parece que, l, a vida em termos humanos, ainda  mais difcil do que aqui.
  E, se eles existem, se tm alguma espcie de civilizao, por que ainda no nos deram o mnimo sinal de vida? Ou, pelo menos, no se deixaram mostrar nos nossos telescpios, atravs de indcios -- construes poderosas, barragens? Diz-se que a nica construo humana que poderia ser visvel de outro planeta  a Muralha da China. Talvez fosse, antes. Pois creio que agora j levantamos construes mais importantes e visveis do que a muralha chinesa. A cidade de Nova York no ter uma imagem mais capaz de se retratar ante os telescpios de Marte ou Vnus?
  Ah, msero orgulho de terrqueos. Os povos de outros planetas decerto tero interesses bem maiores do que esta nossa bola de terra, lama e gua salgada: habitada por incoerentes milhes de seres que se oprimem e se digladiam entre si. Talvez sejam eles 
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 mais generosos, mais sbios; e no tenham, como no nosso caso, o corao muito menor do que os miolos.
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O vo do helicptero
      
  Desde h muitos anos, quando os avies comearam a sobrevoar o nosso Pas, aprendi o que  voar de avio. Tive mesmo uma estria diferente: Voei pela primeira vez na companhia de um dos pioneiros da arma area no Brasil, o j ento "s" Cassimiro Montenegro, que chegou a brigadeiro-do-ar. Convidou-me ele a "dar umas voltas" sobre o Rio de Janeiro. Aceitei, claro, e foi aquele deslumbramento. Brincando,  decolagem, o piloto me prometera executar o que orgulhosamente eu chamava de "acrobacias". E at posso jurar que, durante alguns instantes, voamos de cabea para baixo; faanha de que fiquei me gabando sob os protestos incrdulos e invejosos de meus irmos. Sim, foi a glria, pois at apresentamos fotos -- a gente decolando, primeiro decolando, depois, conforme eu declarava orgulhosa, "em pleno ar".
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  Logo depois desse meu "glorioso vo", iniciou-se no Brasil a aviao comercial; e eu, claro, tornei-me uma passageira contumaz da *Panair*: Rio-So Paulo, Rio-Fortaleza, etc, etc. A viagem area deixara de ser feito memorvel, passava a ser uma rotina. E quando, tempos depois, tive oportunidade de fazer viagens a que chamava "de longo curso" -- num navio grande, que atracava em todos os portos, os passageiros praticamente "morando" a bordo, -- almoo, merenda, jantar, ceia, noite de sono e caf da manh, foi como se recuperasse a infncia, os tempos em que se vinha ao Rio, viajando-se praticamente uma semana inteira. Era muito bom; no se contavam com o tempo perdido os dias de viagem; eram, ao contrrio, a oportunidade de se conhecer melhor, a cada travessia, as cidades famosas como: Salvador, Recife, Natal; e, alm destas, havia os pequenos portos onde o navio ficava ao largo e os passageiros mais audazes alugavam um bote (ou escaler?) para visitar as cidades que se divisavam ao longe; os adultos quase sempre "iam  terra"; ns, no. Criana, nesse tempo, no auferia de muitos privilgios.
  Iniciada a era do avio, mais difcil ainda, ou at mesmo impossvel, seria visitar as cidades s quais aportvamos. Mesmo quando o abastecimento de combustvel e os exames tcnicos do avio tomavam tempo (muito mais que hoje), ficavam os passageiros presos a bordo. J era tempo de ditadura, quem sabe a proibio de desembarcar em trnsito fosse medida de segurana policial? De qualquer forma, era muito mais confortvel para a tripulao, ter atrs das portas fechadas, seus irrequietos e reclamadores passageiros. Alis, lembro agora que, quando no se fornecia comida a bordo, descia todo mundo para almoar ou jantar em terra. Mas isso durou pouco.
  Com esta conversa toda estou querendo provar que sou passageira contumaz de nossas linhas areas e no teria surpresas a esperar nesse terreno.
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  Pois me faltava a surpresa de grande porte: o vo de helicptero. No avio de carreira, decola-se com as portas fechadas, e s se vai ver a paisagem l de cima a muitssimos metros de altura; tudo aparece pequenino, casas, estradas, igrejas, cidades. O prprio campo de pouso que l em terra lhe parecia imenso, visto de cima  um quadradinho, limpo e varrido como um quintal domstico. O helicptero no procura as alturas mais elevadas como o fazem os avies de carreira. O helicptero  quase um objeto domstico, de onde voc entra, sai, bate portas; uma espcie de vago de trem voador. No helicptero, voc entra dentro dele e se sente, no um passageiro comum, mas um convidado: o helicptero vem te buscar gentilmente no terreiro de casa: No exige espaos especiais; consegue iniciar o vo quase aos pulinhos, tomando impulso no que toca a terra firme. E quando ala vo, a impresso de que o ar  o seu verdadeiro elemento, no o cho l em baixo.
  Mas l dentro, depois de se liberar nos ares,  que o helicptero demonstra toda a sua diferena do avio comum. Dentro do avio, voc sobe e sente que  o impulso do motor que te mantm nos ares: se ele parar, cai direto. J o helicptero (pode ser iluso!) ele faz voc sentir que est voando mesmo, como um pssaro, impulsionando pelas asas. Ele pode descer, subir, sair de um lado para outro, no tem rumo marcado e (pelo menos parece) o seu equilbrio no depende da velocidade do vo.
  Enfim, quero dizer que o avio comum  apenas uma mquina mantida no ar pela velocidade do motor, enquanto o helicptero  como um pssaro que governa o seu vo por impulso prprio. Pode subir bem alto, pode descer quase roando o terreno; pousar no cho verticalmente, se quer ver de perto qualquer coisa que lhe interessou especialmente. Enquanto o avio teme, acima de tudo, o contato com a terra e, para a aterrissagem, se prepara longamente, baixando gradativamente de altitude, buscando alinhar-se com a pista, e exigindo grande extenso nessa pista, a fim de poder acomodar o impulso que o carrega aos limites da rea de pouso -- j o helicptero voeja sobre o pouso (no a pista de pouso) e desce verticalmente sobre a rea escolhida.
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  Parece que o avio de carreira s ganha do helicptero em questo de velocidade. Bem, o helicptero no foi criado para vencer grandes distncias. H entre os dois a diferena que existe entre cavalo de montaria e cavalo de tiro. O cavalo que puxa um carro precisa ser poderoso na fora, fiel aos comandos e  exatido em seguir os caminhos. J o cavalo de sela  um companheiro de esporte, que muda de marcha quando solicitado, galopa, salta, brinca com o cavaleiro, em cujo divertimento ou pressa, evidentemente toma parte.
  Assim, pois, o helicptero comparado com o avio,  como um cavalo de alta escala comparado a um cavalo de tiro: um tem acima de tudo a leveza e a graa, o outro a capacidade de carregar fardos. E cada um tem que servir  sua moda, ao dono que o criou e o alimenta.
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O mistrio da vida
      
  A vizinha leva as mos  cabea porque faz cinco semanas que no tem bab para o beb. Resultado, teve que prorrogar a licena maternidade que findara. E eu lembrei a ela que, em vez da queixa, deveria agradecer existir licena maternidade, que lhe garantisse folga paga durante o parto e o resguardo.
  Alis, somos todos uns mal-agradecidos, ns os humanos. A comear pelo dom da vida, que ningum agradece e recebe como coisa que lhe  devida.
  , no . Ns, cada um de ns, no somos planejados coisa nenhuma, nascemos do encontro ocasional dos "micrbios da criana", (como dizia uma conhecida minha, contando como se dera a sua indesejada gravidez). Mesmo os casais que desejam ter filhos se entregam ao acaso, ou mesmo a Deus, na suposio de que Deus se envolva em assuntos to ntimos. Alis, em menina sempre me preocupava o fato de Deus, todo-poderoso, no criar a gente como criou Ado, de um punhado de barro. Poderia, querendo privar-se da cansativa tarefa, delegar poderes ao homem para a reproduo direta da espcie. E a algo  me diz: mas foi exatamente o que Ele fez! Apenas, no facilitou demais, dividiu entre Ado e Eva a fonte criadora, cabendo a ela ser o receptculo ou o hospedeiro do futuro ser e a Ele, Deus, produzir a centelha criadora, sem a qual o milagre no se operaria.
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  Deus, que  mgico e gosta de operar suas mgicas sem interferncias, criou os rgos de reproduo nos seres masculino e feminino, determinou que s funcionassem quando o casal atingisse idade adulta (quer dizer, tivessem capacidade para alimentar e criar o filho que iriam gerar).
  Ah, como dizem agora os jovens: Deus  dez! Faz tudo pelo melhor, pensa nos nfimos detalhes. Acho que, o ofendido talvez com o nosso orgulho em sermos os "senhores da criao", Deus nos mostra que gasta o mesmo tempo e trabalho em reproduzir um besouro, um cachorro, ou um homem. Talvez at Nosso Senhor goste muito mais de reproduzir bichinhos inocentes do que de soprar vida nesses atrevidos e ingratos bpedes que se chamam homens e que, por cada poeta, por cada santo que veja nascer, tenha que aturar milhes e milhes de empedernidos pecadores.
  Ou ser que um santo  um ser to especial, que Nosso Senhor se sente bem pago com uma magra colheita de justos, em relao aos milhes de -- diga-se -- injustos?
  O fato, talvez,  que o limo da terra, com que fomos compostos, seria material de m qualidade, repleto de impurezas. Pegue um punhado de terra, aparentemente limpo e o examine a um microscpio potente. Cada caroo de terra parece um torro, mas o espantoso  que fervilha de vida, coisas quase invisveis que se mexem, e no se sabe a que reino da natureza pertencem, mineral, vegetal ou animal.
  D susto. Por essa ningum espera. E me dizem que se pusermos, sob o tal potente microscpio, um pedao qualquer do nosso corpo, ver-se a que em ns, na nossa pele, na nossa carne, tambm pululam os seres invisveis, hspedes constantes da nossa pessoa.
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   humilhante, no ?
  Como tambm  humilhante a narrativa bblica de que Eva foi feita de uma costela de Ado. Por que a costela, osso to inexpressivo, que serve apenas, junto com as demais costelas, para armar o arcabouo do peito humano? Por que no nos retirar, a ns mulheres, do corao dele -- ou melhor ainda da cabea, do crebro?
  Deus  dez, sim, mas s vezes faz coisas que a gente no entende e, por isso, ressente. Se deu ao homem fora e tamanho para oprimir a mulher, e at espanc-la, se raivoso -- por que entregou  frgil mulher,  dominada mulher, a sede prpria da vida, onde o feto se forma e vira gente?
  Uma vez ouvi um sujeito malcriado dizer que o ventre da mulher era apenas o ninho onde se chocam os ovos do homem.  o tipo da definio idiota, pois que, se o homem inventasse de chocar os seus tais ovos em outros "repositrios" que  que ele arranjava?
  Alis, ns mulheres, sabemos que somos a parte mais confivel do casal humano. Se no fosse a gente, o homem no trabalhava, no assumia responsabilidades, ficava na flauta, se divertindo, se contentando em morar debaixo de uma rvore.
  Toda mulher sabe o trabalho que lhe deu educar o seu homem; e, se 
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 no proclamamos isso,  porque eles podem fazer greve, e ento quem  que vai ganhar para ns o po de cada dia?
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O saber e o falar
      
  Vocs sabem o que  fileiros? (esse neologismo, fileiros -- os que fazem filas -- no fui eu que o inventei, j vem fazendo carreira entre os prprios, quero dizer, os fileiros). Alis, neologismo principalmente os de gria, tm quase sempre nascimento humilde. As pessoas mais cultas, ou escutam as palavras difceis na sua prpria casa ou as consultam no dicionrio. O ignorante comum tem seu prprio dicionrio na cabea, restrito,  verdade, muito faltoso na conjugao dos verbos, mas dono de um toque pessoal, inclusive.
  Foi um assunto que sempre me impressionou, como  que nasce uma linguagem. Quando eu era ainda menina e comearam a me ensinar o francs, o grande mistrio para mim era: como ser que eles deram para falar desse jeito? Inventaram primeiro as palavras todas e desandaram falando, ou foram inventando as palavras de uma em uma? Devemos confessar que, a esta altura do mundo, ainda sabemos muito pouco da inveno da linguagem. Claro, que os especialistas explicam tudo a respeito, mas quem  que acredita em especialista? Por exemplo na nossa lngua se diz menino-menina. De repente veio algum, que inventou "criana" uma palavra s para dizer, no lugar das duas. E afinal todas essas minhas hipteses so justas, pois ningum sabe mesmo como  que nasce um idioma. Descartando-se a origem bblica do par inicial. Ado e Eva, que j nasceu grandinho e falando tudo, como  que comea uma lngua? Tudo vir mesmo de um casal inicial? Por que, em resumo, a indagao principal  esta, a gente provm de um par humano nico ou da lenta transformao de macacos em homens? E, mesmo dentro dessa hiptese, como comeou o primeiro casal de macacos? Os livros de Histria natural no nos ensinam nada disso. Ser que a princpio foi uma bolha e dentro da bolha havia um ponto de vida e esse ponto virou um animculo, e o animculo foi se dividindo em duas e depois duas metades se dividiram em duas e, de diviso em diviso chegaram ao homem? No colgio da Imaculada, quando estudvamos para normalistas, o nosso professor, um mdico, ateu, citou as diversas hipteses para criao da vida e o seu desenvolvimento e nos disse, sorrindo: "Escolham a melhor que lhes parecer dessas hipteses, mas no contem s Irms que eu desdenhei de Ado e Eva".
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  Vocs j pensaram o que seria essa frase do professor, ou antes, essa dvida, para um auditrio de meninas, composto de adolescentes como eu que era a mais nova, mulheres j feitas, muitas delas se preparando para o noviciado religioso?
  Bem, para as postulantes, as quase freiras, no havia problemas, j estavam encartadas no papel, tinham ouvidos moucos para tudo que fugisse  doutrina. Mas o meu time fervia, cada uma inventava a sua teoria da criao e da reproduo, mas ramos to excessivamente ignorantes que nada sabamos, mas nada mesmo, da anatomia humana. Um menino de cinco anos nu, de certa forma, era defeso ao nosso olhar. Menina, desde pequenina, no se misturava com meninos. Maria Vicncia, uma das nossas auxiliares de disciplina, nos obrigava a tomar banho de chuveiro vestidas em camisolas, e uma 
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das auxiliares da disciplina ensinava s pequenas a se enxugar e mudar de roupa. Ns, que nos virssemos pela toalha que se destinava originalmente no s a nos enxugar, como a nos cobrir. Curioso  que jamais discutamos em casa a obsesso de modstia imposta no internato. Em casa, vamos nossas tais jovens e as primas passeando pelo quarto em vestes menores, sem qualquer curiosidade da nossa parte. Talvez obscuramente pensssemos que as mulheres de casa compunham um ncleo especial.
  Engraado  que, da adolescncia  velhice, a gente evolui muito menos do que pensa. Mesmo depois de tanta idade, ainda temos uma vasta cpia de curiosidade reprimidas.
  Talvez moas de hoje j procedam diversamente. Mas ns, coitados, vamos morrer mesmo como espcie de uma raa extinta.

               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

Fim da Obra